domingo, 29 de junho de 2014

Comentários sobre o texto, o modelo dos modelos de Ítalo Calvino


O texto aborda a homogeneidade retratada pela sociedade. O personagem, O senhor Palomar, o qual idealiza o seu modelo humano, vai gradativamente querendo mais sua perfeição, no entanto, após reflexão, percebe o quanto é em vão seu desejo, pois não há um modelo absoluto.

Conforme a Declaração Universal dos Direitos Humanos aprovada em 1948 (século XX), na qual esboça os direitos humanos básicos, destaca em seu Artigo 1°, “Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade”. A partir deste documento, o mundo despertou-se para um novo olhar para as pessoas com deficiência.

No Brasil, já no final da década de 70, a partir do movimento político das pessoas com deficiência, iniciou-se uma grande luta de as pessoas com deficiência seguidas de seus familiares, amigos e solidários em busca de sua visibilidade, do acesso à educação, à saúde, ou seja, a inserção das pessoas com deficiência na sociedade, as quais deveriam ser reconhecidas pelos seus talentos, suas potencialidades, na qual a deficiência é secundária diante de tantas características.

Atualmente com a Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva, houve uma expansão do número de matrículas de crianças, adolescentes e adultos nas instituições escolares e consequentemente o número de Sala de Recurso Multifuncional (SRM), que é o ambiente físico onde ocorre o Atendimento Educacional Especializado (AEE), que tem como seu público-alvo: alunos com deficiência, alunos com transtorno global do desenvolvimento e alunos altas habilidade/superdotação. Neste espaço, nós, professoras, aprendemos e ensinamos simultaneamente com tamanha diversidade de conhecimento, onde o aluno com sua particularidade desenvolve suas atividades, necessitando ou não de tecnologia assistiva.

O “modelo palomar” falta em nossas escolas, em nossa sociedade, pois a diversidade humana requer respeito e cidadania. Afirmamos isto no sentido da aceitação do novo, do diferente, pois “...eis que ele se depara face a face com a realidade mal padronizável e não homogeneizável, formulando os seus “sins”, os seus “nãos”, os seus “mas”.

No AEE sentimos e percebemos a relevância do respeito à pessoa humana. Valorizar nosso aluno é nosso dever primordial.


Aprovado o Plano Nacional de Educação (PNE)




Sancionado pela Lei nº 13.005 de 25 de junho de 2014, após mais de três anos de discussão. Embora ainda com pendências do século XX, o documento traz diversos desafios para a educação básica!


http://www.planalto.gov.br/CCIVIL_03/_Ato2011-2014/2014/Lei/L13005.htm

sábado, 7 de junho de 2014

Uso de Tecnologias Acessíveis para alunos com Transtorno do Espectro Autista

A atividade a seguir terá como seu público-alvo os alunos com Transtorno do Espectro Autista (TEA), com idade entre 6 e 8 anos de idade.
Os recursos tecnológicos são meios relevantes para as atividades desenvolvidas com os alunos TEA. Há versões em desktop, web e dispositivos móveis.
Apresentaremos o SCALA (Sistema de Comunicação Alternativa para letramento de pessoas com autismo) que auxiliará no processo de inclusão dos referidos alunos. A atividade será integrante do Plano de Atendimento Educacional Especializado (AEE) e será aplicada na própria Sala de Recurso Multifuncional (SRM).

.Abordaremos a aplicação nas formas de comunicação, uma vez que o sistema SCALA possui um módulo para construção de pranchas de comunicação abrangendo diversos temas como natureza, alimentos, sentimentos e outros. Disponível na web, http://scala.ufrgs.br/Scalaweb/. . Vejamos algumas dicas para atividade com ênfase na ação “comer”. 


Para inserir a figura na prancha basta clicar sobre ela e depois sobrea lugar em que ela ficará. Assim pode-se inserir diversas figuras. Por exemplo, na imagem a seguir temos a figura de um menino que está comendo. Como comer é uma ação, inicialmente vamos em “Ações” e procuramos a figura da ação comer. Em seguida, clicamos primeiramente sobre a ação comer e depois sobre o espaço onde se deseja colocá-la.
            Abaixo uma prancha já bastante preenchida pelo aluno, o qual seguiu as orientações da professora do AEE. Salientamos que esta atividade refere-se à abordagem sobre as frutas  e outros tipos de alimentos preferidos pelo aluno, cujo será indagado para o (re)conhecimento das mesmas no computador.


Referências


SCALA - Sistema de Comunicação Alternativa para letramento de pessoas com autismo. Disponível em: <http://scala.ufrgs.br/Scalaweb/>. Acesso em: junho de 2014.


sábado, 19 de abril de 2014

A Surdocegueira e a Deficiência Múltipla



A Surdocegueira e a Deficiência Múltipla

Conforme os/as autores/as a surdocegueira é uma deficiência única, a qual é subdividida em quatro categorias:
  • Pessoas que eram cegas e se tornaram surdas;
  • Pessoas que eram surdas e se tornaram cegas;
  • Pessoas que se tornaram surdocegas;
  • Pessoas que nasceram ou adquiriram surdocegueira precocemente, ou seja, não tiveram a oportunidade de desenvolver linguagem, habilidades comunicativas ou cognitivas nem base conceitual sobre a qual possam construir uma compreensão de mundo.
            Destacam-se ainda em Surdocegas Congênitas ou Surdocegas Adquiridas. No primeiro caso, quando a criança nasce Surdocega ou adquire nos primeiros anos de vida, antes da aquisição de uma língua. Já no segundo, quando a pessoa fica surdocega após a aquisição de uma língua, seja oral ou sinalizada.
As pessoas sudocegas utilizam as mãos que retêm a comunicação da visão e audição.

“Felizmente, como nos recorda Harlan Leane e Oliver Sacks, o cérebro é algo extremamente plástico. Quando se usa um dos sentidos, o cérebro é capaz de processar com mais eficiência a informação que provém deste sentido. As pessoas usam intensamente os dedos da mão, como os leitores de Braille e os que tocam os instrumentos de cordas”. (Miles)

A estimulação precoce é extremamente significante para que a criança surdocega  obtenha informações.

Com freqüência, as mãos de uma pessoa que é surdacega devem assumir um papel adicional. Não somente ser ferramentas (como são para todas as pessoas que tem o uso de suas mãos), e órgãos sensoriais (para compensar a visão e audição que lhes faltam), sendo que devem também converter-se em voz, o meio principal de expressão.  A linguagem de sinais e gestos é com frequência a via principal de comunicação expressiva. Para estas tarefas, as mãos devem possuir uma habilidade singular, capazes de expressas coisas como o tom, as matizes de sentimento e os ênfases de significado, além de serem capazes de formar palavras.(Miles)

As pessoas, as quais se relacionam com a pessoa surdocega devem exercitar com frequência a comunicação utilizando as mãos, uma forma de fortalecer a sua interação social, assim como o seu desenvolvimento educacional.

Pais, amigos e educadores devem enfatizar a sensibilidade especial para com as mãos. Devem aprender como ler as mãos de uma pessoa que é surdocegae como interagir com elas...devem ‘falar a linguagem das mãos para as mãos e ler a linguagem das mãos das mãos’” (Miles)

Poesia de uma jovem surdocega sobre a relevância das mãos em sua vida:


Minhas Mãos
Minhas mãos são . . .
Meus Ouvidos, Meus Olhos, Minha Voz, . . . Meu Coração
Expressam meus desejos, minha necessidades
São a luz que me guia através da escuridão

Agora estão livres
Não mais atadas a um mundo que vê e ouve
Estão livres
Gentilmente me conduzem
Com minhas mãos eu canto
Canto bem alto para que os surdos ouçam
Canto bem brilhante para que os cegos vejam

Elas são minha liberdade de um mundo escuro e quieto
São minha janela para a vida
Por meio delas, posso realmente ver e ouvir

Posso sentir o sol contra o céu azul
A alegria da música e do riso
A maciez de uma chuva leve
A aspereza da língua de um cão

Elas são minha chave para o mundo
Meus Ouvidos, Meus Olhos, Minha Voz . . .
Meu Coração
Elas são eu mesma
Amantha Stine, 1997.


A Deficiência Múltipla (DMU) é considerada àquela em que o indivíduo apresenta mais de duas deficiências. De acordo com Lei nº 7.853, de 24 de outubro de 1989, “é a associação, no mesmo indivíduo, de duas ou mais deficiências primárias (intelectual/visual/auditiva/física), com comprometimentos que acarretam consequências no seu desenvolvimento global e na sua capacidade adaptativa”. Os casos reais de deficiência múltipla, do contexto da escola comum, podem ser: deficiência visual associada a paralisia cerebral (usuária de cadeira de rodas),deficiência visual e deficiência intelectual, deficiência visual e autismo, deficiência auditiva/pessoa com surdez e autismo, deficiência auditiva/pessoa com surdez e deficiência intelectual, deficiência auditiva/pessoa com surdez e paralisia cerebral (usuária de cadeira de rodas e surdocegueira congênita (sem um sistema de comunicação estabelecido). Tem como causas: pré-natais, peri-natais e pós-natais. Suas necessidades básicas destacam-se: físicas e médicas (limitações sensoriais, convulsões, problemas com deglutição e mastigação); emocionais (atenção, afeto, desenvolver relações sociais e afetivas) e educativas (limitações no acesso ao ambiente, dificuldades na interpretação da informação).


     Para a comunicação das pessoas com DMU, são necessários quatro elementos básicos: o emissor/locutor, o receptor, o tópico, o meio de expressá-lo. Também utilizada A Comunicação Alternativa e Aumentativa (CAA),

A Comunicação Alternativa e Aumentativa (CAA), refere-se a sistemas usados para dar suporte à habilidades  comunicativas do indivíduo, cuja fala esteja temporariamente ou permanentemente inadequada para suprir as necessidades comunicativas do mesmo. (Ikonomidis)

Há casos em que a pessoa com DMU tentam se comunicar através da fala, sons, vocalizações, no entanto, não conseguem transmitir com eficácia e com CAA terão mais êxito.

Acesse o link a seguir e verá o vídeo A História da Vida de Helen Keller. (1880/1968)
 https://www.youtube.com/watch?v=4QOdpBPNXS0



 









Não há barreiras que o ser humano não possa transpor.”  Helen Keller


Referências:

BRASIL. A Educação Especial na Perspectiva da Inclusão Escolar: surdocegueira e deficiência múltipla. V.5. Brasília: MEC/ SEESP, 2010.

Ikonomidis, Vula Maria. Deficiência Múltipla Sensorial.

Instituto Benjamin Constant. Disponível em: http://www.ibc.gov.br/index.php?query=Helen+Busca&Buscar=Buscar&amount=0&blogid=1. Acesso em 15 de abril de 2014.

Maia, Shirley Rodrigues. AEE – Atendimento Educacional Especializado. Aspectos Importantes para Saber sobre Surdocegueira e Deficiência Múltipla. São Paulo, 2011.

Miles, Bárbara. Falar a Linguagem das Mãos para as Mãos. Grupo Brasil de Apoio ao Surdocego e ao Múltiplo Deficiente Sensorial. Centro Nacional para Distribuição de Informações sobre Crianças Surdocegas. Abril, 1998.

Serpa, Ximena. Instituto Nacional para Cegos. Bogotá. Colômbia, 2002. Comunicação para Pessoas com Surdocegueira.
  

Vídeo: A História da Vida de Helen Keller. Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=4QOdpBPNXS0. Acesso em 18 de abril/2014





segunda-feira, 17 de março de 2014

O Atendimento Educacional Especializado para as Pessoas com Surdez


Há várias décadas a educação das pessoas com surdez vem sofrendo com embate entre a educação oralista e gestualista. O ensino da Língua Brasileira de Sinais – LIBRAS e o ensino da Língua Portuguesa para o aluno com surdez, têm causado prejuízos imensos à educação destes alunos, pois há uma relevância dividida nas instituições educacionais brasileira. Com a  Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva exige um novo modelo de educação especial/inclusiva, na qual os métodos e práticas educacionais sejam mais abrangentes para o seu público alvo:

Os estudos mais recentes no campo da educação especial enfatizam que as definições e uso de classificações devem ser contextualizados, não se esgotando na mera especificação ou categorização atribuída a um quadro de deficiência, transtorno, distúrbio, síndrome ou aptidão. Considera-se que as pessoas se modificam continuamente, transformando o contexto no qual se inserem. Esse dinamismo exige uma atuação pedagógica voltada para alterar a situação de exclusão, reforçando a importância dos ambientes heterogêneos para a promoção da aprendizagem de todos os alunos. (MEC/SEEESP.2008)

            As escolas comuns públicas e privadas precisam romper com suas barreiras atitudinais que levam milhares de pessoas surdas à exclusão social, porém, para que haja essa mudança, é necessária uma compreensão de que cada pessoa humana tem sua identidade própria, com uma história sócio-econômica-política única e que todos somos iguais perante os direitos garantidos por lei.
 Por muito tempo a pessoa com surdez era considerada uma pessoa com deficiência, contudo a autora ressalta que não, pois têm uma perda sensorial auditiva e que suas potencialidades são mantidas não comprometendo seu desenvolvimento cognitivo, psíquico e linguístico. A autora refuta os rótulos aos ouvintes e gestualistas:

Nesse sentido, sob a força do que se constitui como paradigma inclusivo, não legitimamos os estudos e trabalhos que têm defendido os marcadores identitários dos surdos: cultura surda, identidade surda, línguas surdas e sujeito surdo, tendo, do outro lado, os seus oponentes: os ouvintes dominadores.

Percebemos portanto, uma situação de dominado (gestualista) e dominante (oralista), na qual as pessoas com surdez são marginalizadas, pois utilizam a LIBRAS para comunicar-se, diferenciando-se da maioria.
O conhecimento da LIBRAS não é única condição para o desenvolvimento educacional dos alunos com surdez, pois como afirma (DAMÁZIO.2010) “O problema da educação das pessoas com surdez não pode continuar sendo centrado nessa ou naquela língua (...), mas também na qualidade e na eficiência das práticas pedagógicas”. E ainda reforça seu pensamento quando afirma que “Se só a posse de uma língua bastasse para aprender, as pessoas ouvintes não teriam problemas de aproveitamento escolar, já que entram na escola com uma língua oral desenvolvida”. Constatamos a relevância urgente de mudanças educacionais na gestão escolar, pois a existência de um novo olhar para a inclusão das pessoas com surdez transformará suas vidas.
Conforme a autora, existem vários estorvos que causam transtorno à educação inclusiva, entre eles:

Exigência do aprendizado da Língua Portuguesa pelo aluno com surdez no mesmo tempo e ritmo que os ouvintes; conteúdos ministrados em língua oral ou só por meio da interpretação de Libras em sala de aula comum, o que não garante o efetivo desenvolvimento e aprendizagem; sala de recurso no contra turno com a finalidade de reforço e apoio; intérprete de Libras assumindo o papel do professor do AEE PS e da sala de aula comum; uso exclusivo da Libras no cotidiano do trabalho escolar, negando o direito de aprender o português escrito.

O bilinguismo é bastante valorizado pela autora que aponta o Decreto 5.626, de 5 de dezembro de 2005, que determina o direito de uma educação que garanta a formação da pessoa com surdez, na qual o acesso a  LIBRAS e a Língua Portuguesa aconteçam simultaneamente no ambiente escolar, para isto citamos os três momentos didático-pedagógicos:
·         Atendimento Educacional Especializado em LIBRAS, o qual acontece diariamente no contraturno ao da sala de aula comum. Os alunos estudarão os conteúdos curriculares, que serão antecipados para o professor do AEE; o Atendimento Educacional Especializado em Língua Portuguesa, onde ocorre no horário contrário da sala de aula comum, na Sala de Recurso Multifuncional, sendo desenvolvido por um professor, preferencialmente, formado em Letras e o Atendimento Educacional Especializado de LIBRAS, realizado pelo professor e/ou instrutor de libras (preferencialmente, por profissionais com surdez). Nesse trabalho o professor deverá evitar o bimodalismo, ou seja, misturar a LIBRAS e a Língua Portuguesa.
Referências:

DAMÁZIO, M. F. M.; FERREIRA, J. Educação Escolar de Pessoas com Surdez-Atendimento Educacional Especializado em Construção. Revista Inclusão: Brasília: MEC, V.5, 2010. p.46-57. 
BRASIL. Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva, 2008. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/arquivos/pdf/politicaeducespecial.pdf. Acesso em março/2014.




















segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Carta de um cidadão canadense sobre Educação Inclusiva enviada à Dilma


Fortaleza, 23 de novembro de 2013.
Excelentíssima Senhora Presidenta da República Dilma Rousseff,
Primeiramente, devo apresentar-me. Sou cidadão canadense. Trabalhei 35 anos em uma universidade do Canadá como professor-pesquisador na área de psicopedagogia. Formei um grande número de professores especializados para atuação em salas especiais reservadas aos alunos que apresentam necessidades específicas. Ao longo do tempo, venho direcionando minhas reflexões sobre a aplicabilidade social e os efeitos da frequentação da sala de aula especial. Meus trabalhos de pesquisa e o meu direcionamento pessoal levaram-me pouco a pouco a ter consciência da necessidade de uma mudança profunda da escola; quer dizer de seus valores e, consequentemente, de suas práticas.
Atualmente, sou professor visitante da Universidade Federal do Ceará. Há sete anos, aceitei fervorosamente o convite de uma equipe de pesquisadores, desta instituição, para a realização de uma pesquisa apoiada pela CAPES. Tratava-se de uma pesquisa que visava o estudo dos processos de transformação de uma escola pública de educação fundamental de Fortaleza em uma escola com práticas inclusivas. Resumindo, uma pesquisa que ia, completamente, no mesmo sentido dos meus interesses pelo desenvolvimento de uma escola “nova”, de uma escola “diferente”, uma escola fundamentada na valorização das diferenças individuais. No início, minha colaboração com essa equipe de pesquisa deveria durar três meses. Porém, eis-me aqui ainda trabalhando no seio desta equipe que, incansavelmente, desenvolve projetos de pesquisa que visam o desenvolvimento de intervenções educativas destinadas a favorecer a inclusão das pessoas que apresentam alguma necessidade específica em suas comunidades. A vontade do povo brasileiro de transformar a escola pública – para permitir o acolhimento, na sala de aula regular, de todos os jovens, e isso sem distinção – está diretamente ligada ao fato de que eu continuo a contribuir ativamente para os trabalhos deste grupo de pesquisa.
Em 2008, o Brasil adotou um decreto que conduziu ao desaparecimento das escolas e das salas especiais no serviço público. Doravante as escolas públicas se viam na obrigação de matricular todos os alunos independente de suas características. A escola tinha como meta acolher a todos nas salas de aula regulares. Tratava-se de uma decisão política progressista, decisão esta que eu mesmo gostaria muito de ter visto no meu próprio país.
Desde então, eu assisti, com entusiasmo, a construção de uma nova escola fundamentada sobre os princípios da educação inclusiva. Como exemplo, eu poderia citar as atividades de aperfeiçoamento no domínio de educação inclusiva oferecidas aos professores de todo o Brasil, assim como a atuação, nos meios escolares, dos serviços do Atendimento Educacional Especializado (AEE) e enfim, a formação somente pela Universidade Federal do Ceará, de mais de 6000 professores aptos a atuarem nas salas Recursos Multifuncionais que oferecem os serviços do Atendimento Educacional Especializado. Trata-se de um trabalho colossal realizado em muito pouco tempo a fim de assegurar um suporte adequado e o melhor acolhimento possível para os alunos público-alvo da educação especial nas escolas e salas regulares do Brasil inteiro.
Esta iniciativa do povo brasileiro e de seus representantes constitui um esforço corajoso com o objetivo de romper com a escola pública tradicional. Esta escola repousa, em geral, sobre normas geradoras de categorização. Ela favorece muito a competição e pouco a cooperação entre os alunos. Apesar do discurso “oficial”, os valores de igualdade e de direito e respeito que sustentam a inclusão social não são verdadeiramente respeitados. A escola tradicional não faz apelo a uma ação educativa que permite aos alunos de meio socioeconômico desfavorecido ou com necessidades especiais viverem experiencia de valorização. Ela constitui em si mesma fonte de exclusão social e de marginalização.
A emergência de uma escola fundamentada sobre os princípios da educação inclusiva constitui, na minha minha opinião, a pedra angular da construção de uma sociedade onde prevaleçam os valores de “respeito pela vida humana” e de “igualdade de direitos”. Não se pode ter verdadeira inclusão social sem uma presença afirmativa desses valores em uma sociedade. Não existem genes que possam garantir de imediato a emergência desses valores nos seres humanos. É sobre a escola que recai, primeiramente e acima de tudo, a responsabilidade da construção destes valores.
Uma escola que rejeita toda forma de segregação e que graças à cooperação e à contribuição entre os alunos, é capaz de criar as condições necessárias para o desenvolvimento destes valores. Uma escola que valoriza a participação de todos, reconhecendo a riqueza que constitui a “diferença” para o desenvolvimento dos saberes e das habilidades sociais. Essa valorização do papel social do aluno só é possível na medida em que ele é reconhecido, por seus pares, como uma pessoa que traz uma contribuição, mesmo modesta, ao desenvolvimento de saberes, saber-fazer e saberes-ser coletivos. É finalmente um meio de vida onde o aluno pode se perceber como um indivíduo que contribui para o desenvolvimento de saberes e saberes-fazer coletivos e retirar disso múltiplas vantagens. Como uma escola que só acolhe os alunos que possuem necessidades especiais pode constituir um meio favorável para o papel social de um aluno; valorização que passa pelo olhar do outro; se este outro é também um indivíduo marginalizado e cujo papel social não é valorizado?
Claro que mudanças tão profundas no meio escolar não acontecem sem uma série de questionamentos e de desequilíbrios no que concerne a escola pública brasileira. Consequentemente, não se deve esperar que esta escola, tão enraizada nestas práticas tradicionais, se transforme da noite para o dia. É preciso tempo, e uma verdadeira vontade de mudança por parte dos atores escolares e dos governantes para realizar mudanças tão importantes.
Eis então que, recentemente, eu ouvi, pela mídia, as intenções de Senadores a favor da aprovação do Plano Nacional da Educação; eles propõem uma regressão; em um momento em que o Brasil é, particularmente, proativo no que concerne o respeito e a promoção dos direitos dos homens, adiantando-se com sua política de acolhimento e de manutenção em sala regular de todos os seus jovens cidadãos. De fato, eles propõem que a regulamentação, que torna obrigatória a inclusão, em sala de aula regular dos alunos público-alvo da educação especial, seja modificada. Esta inclusão não seria mais obrigatória, ela se faria “de preferência, em sala de aula regular” e seria de escolha dos pais, a decisão do tipo de escola para seu filho.
Com a integração destas palavras no texto da regulamentação, palavras que, aparentemente parecem banais, é todo o espírito da lei que perde seu sentido. De fato, é reconhecer explicitamente que os pais de um aluno que apresenta necessidades especiais podem decidir que seu filho seja objeto de segregação, frequentando uma sala especial, e é reconhecer, também, que o Brasil aceite de novo a segregação de uma parte de seus cidadãos. Pois, deve tratar-se, finalmente, disso. É, de fato, permitir que um bom número de alunos seja marginalizado, evoluindo em autarquia, quer dizer em um meio que não permite troca com o exterior. Que retrocesso!
A escola ou sala de aula especiais constituem meios de segregação ou de marginalização dos alunos. Elas não constituem o quadro educativo mais propício para o desenvolvimento intelectual e socioafetivo dos jovens e isso, pouco importando as características destes últimos. Aliás, a presença de salas e escolas especiais, como é o caso mais ou menos, generalizado no mundo, está bem longe de ter dado os resultados esperados. A literatura científica é muito eloquente neste assunto. Muito esforço e muito dinheiro para pouco resultado.
Pessoalmente, eu prefiro ver o aluno que apresenta necessidades específicas evoluir desde o início da sua escolarização na sala de aula regular, mesmo que isso seja um pouco difícil e mesmo que as condições de escolarização dos alunos que possuem necessidades especiais neste meio não sejam sempre perfeitas. É neste meio que acontece a vida real e onde ele se socializa realmente. Aos que acham que, às vezes é necessário, acolher um aluno em um meio segregado, eu respondo que é na água que se aprende a nadar e não na borda da piscina com a desculpa de que ele não sabe nadar. É em situação social “normal” que se aprende a viver “normalmente”. E para mim, não existe bom momento ou momento ruim para evoluir na sala de aula regular. Tem-se acesso quando se atinge a idade e eu estimo que não é marginalizando uma criança, mesmo com as melhores intenções do mundo, que se vai desenvolver nela as ferramentas úteis para a sua adaptação. É dentro de um contexto que isso deve acontecer.
Eu, provavelmente, ouvi todo o arsenal de argumentos que foram colocados para justificar a presença de uma escola paralela, destinada as crianças e aos jovens que apresentam necessidades especiais. Esses argumentos são numerosos. Eles vão, desde o despreparo da escola atual para acolher esses jovens, considerando a falta de formação dos professores e da ausência de meios pedagógicos eficazes em um contexto da educação inclusiva, até a necessidade de impedir que esses alunos prejudiquem o progresso dos outros alunos de sala. Esses argumentos, há tempos, nos os ouvimos e acabam por nos fazer acreditar que a escola pública está condenada à inércia total e que ela é incapaz de se defender e de se transformar, fato este que sou totalmente contra. Estes argumentos fazem parte, na minha opinião, de “l´ordre d´un discours d´un marchand de tapis” e se revelaram totalmente estéreis. Eles só fazem retardar a emergência de uma escola capaz de valorizar o papel de cada aluno, onde pouco importam suas características. O Brasil possui educadores competentes e capazes de transformar a escola regular, para fazer dela um meio de formação favorável ao desenvolvimento de todos os jovens que lhe são confiados e pouco importa a natureza de suas necessidades. É preciso, é claro, lhes dar ainda tempo e meios para isso.
Não há mais lugar para a procrastinação. É preciso muito trabalho para construir essa nova escola, da qual o Brasil tirará vantagens a longo prazo; tanto pelo reconhecimento da qualidade do seu sistema de educação, como pelos valores democráticos e pela solidariedade social de seus jovens cidadãos. Alguns países como a Itália e a Noruega já souberam administrar o desafio e adotar outros caminhos em direção a este objetivo. Eu não vejo nenhuma razão que possa justificar que o Brasil não alcance o final do seu projeto, que é a escola inclusiva. Porém, para isso, é necessário que haja uma negociação entre todos os atores escolares e uma reafirmação dos engajamentos feitos em 2008. E, principalmente, é preciso que o projeto educativo de cada escola pública do Brasil testemunhe os valores veiculados pela educação inclusiva, que ela faça dele uma prioridade e que as medidas concretas sejam aplicadas nas salas de aula. Não há mais tempo para belas palavras, menos tempo ainda para a inércia. A vez agora é da ação, uma ação construtiva que gere resultados positivos.
Por outro lado, é preciso que o meio universitário faça, também, a sua parte para a concretização desse grande projeto. Como imaginar que esse projeto de transformação da escola pública brasileira possa excluir a implicação das universidades, assim como uma ação combinada por parte delas? Até então, o que se observa é que há, neste meio, uma grande timidez nas ações.
De fato, seja no nível da formação inicial dos professores ou no nível de aperfeiçoamento dos educadores, tudo acontece de maneira como se esse projeto de transformação profunda não fizesse parte das suas prioridades. Ou seja, as universidades oferecem apenas algumas atividades dispersas que englobam os alunos que apresentam necessidades específicas. Porém, elas ainda não responderam a sua função primeira, que é a transformação de seus programas de formação inicial e aperfeiçoamento dos educadores escolares.
Parece-me essencial que esses programas tenham como base a questão da acolhida e do acompanhamento de todos esses alunos, quer dizer, a gestão da diversidade ou da diferença na escola, na sala de aula, mais especificamente. Ou seja, para responder a essa condição, será exigido dos professores, do meio universitário, grandes esforços de negociação, uma vez que todos deverão agir para que a gestão da diferença tenha um verdadeiro caráter transversal na formação, para que essa diferença seja o fio condutor, o que não é, de maneira nenhuma, o caso atual.
Enfim, parece-me urgente que surjam, nos meios universitários, vários programas de pesquisa concentrados especificamente sobre a questão do desenvolvimento das práticas educativas no contexto da educação inclusiva. A questão é importante, e é essencial um grande investimento de recursos humanos e financeiros.
Eis então, vossa excelência, o fruto da reflexão de um não-cidadão do seu magnífico país. Eu lho manifesto, humildemente, esperando que ele tenha alguma utilidade quando das decisões tomadas, decisões estas que terão um imenso impacto sobre o futuro dos jovens cidadãos do Brasil.
  Jean-Robert Poulin, Ph.D., professor visitante da Universidade Federal do Ceará
Referência: